Um casal de arquitetos recomeçando a vida profissional em Ontário

Cariocas no CanadáProjeto Canadá: Enquanto muitos imigrantes são obrigados a se reinventar, a Adriana e o Bruno que são arquitetos, e moravam em Brasília, batalharam firme em terras canadenses para continuar atuando na área na província de Ontário.

A arquitetura é uma profissão regulamentada no Canadá, e como muitas outras, exige um longo e exaustivo processo de validação.

Eles já conseguiram se recolocar no mercado como técnicos e agora só falta expandir o “networking” para voar mais alto. Confira a história deste casal, que chegou no Canadá em abril de 2017 e já está super adaptado. 

Canadiando: Por que vocês escolheram a província de Ontário? 

Adriana: A história é longa. Meu marido que pesquisou os locais onde poderia estudar “Construction Project Management” e encontrou o curso em London, em Ontário. Então, estudamos profundamente a cidade e decidimos ir para lá.

 TOEFL

Iniciamos o processo da papelada e ele foi aceito com a condição de atingir a nota mínima do TOEFLInfelizmente o Bruno fez o TOEFL mas não atingiu a nota mínima desse college, que exigia fluência maior no inglês.

Nesta época chegamos a uma consultoria educacional que nos sugeriu o mesmo curso, mas numa instituição de Toronto, com duração maior, incluindo co-op (estágio obrigatório) e que aceitava a nota do TOEFL já alcançada.

Ela também nos orientou em relação às oportunidades naquela região de Ontário e que o co-op aumentaria as chances de entrar no mercado de trabalho. E foi o que aconteceu, o Bruno continua com o mesma empresa que fez o programa de estágio e terminou o college.

Canadiando: E vocês moram em Toronto? É realmente muito mais caro? 

Adriana: Nossa vida profissional ainda é em Toronto, mas moramos em Vaughan que fica na GTA (Grande Toronto). 

Sim, os imóveis são  caros para alugar e a cada ano existe um aumento para novos contratos.
Nós morávamos num apartamento bem pequeno, mas quando o Bruno terminou o college e nós dois estávamos trabalhando, decidimos mudar para um lugar maior.

Quando fomos pesquisar, os novos contratos para imóveis de dois quartos estavam muito elevados.

Por exemplo, um apartamento assim no nosso prédio era quase o mesmo valor de  uma townhouse em Vaughan. Por isso decidimos mudar e hoje moramos bem perto do trem. A grande vantagem é que conseguimos chegar em downtown Toronto em 30 minutos.

Família brasileira no Canadá
Arquivo pessoal

Canadiando: Qual o motivo de imigrar para o Canadá?

Adriana: O Bruno sempre quis morar fora e eu relutava. Nós já tínhamos morado no exterior para estudar em momentos diferentes, e apesar de ter sido uma ótima experiência, eu não pensava em partir novamente.

Uma vez eu comentei com o Bruno que se as coisas dessem errado na nossa vida no Brasil, a gente poderia pensar nisso. E aí muitos fatos aconteceram, sendo que o estopim  foi quando nós dois perdemos nossos empregos ao mesmo tempo em 2016.

Tentamos nos recolocar no mercado, mas foi uma fase bem difícil pra construção civil e na nossa área em geral.Vários colegas foram pra rua e a crise foi pesada.  A partir daí pesquisamos os Estados Unidos, que era nossa primeira opção, contudo, vimos como era difícil imigrar pra lá. Foi assim que chegamos no Canada.

Canadiando: Qual foi o seu planejamento inicial? Alguma coisa mudou na chegada? 

Adriana: Nosso planejamento era bem simples: O Bruno estudaria por dois anos no college, e eu, com visto de trabalho, trabalharia full time. Além disso viemos com planejamento financeiro também, preparados para qualquer imprevisto.

Eu já tinha dez anos de experiência com arquitetura no Brasil, e quando chegamos eu imaginava que encontraria facilmente um emprego na minha área, mesmo que fosse como Cadista (desenhista de arquitetura) ou talvez na área de design de interiores.

Mas aqui caiu a ficha. Vi que não era fácil de conseguir, principalmente porque o meu nível de inglês não era bom e eu não conhecia ninguém. O que mudou então foi que precisei abrir mais a minha cabeça e tentar encontrar qualquer coisa que nos ajudasse a ganhar dinheiro.

Tive que perder o meu medo de falar inglês na marra.

Passei seis meses aplicando pra vagas na área, fazendo alguns workshops oferecidos por empresas vinculadas ao governo (de linkedin, entrevistas, resume) e trabalhando em algumas coisas que nunca imaginei: vendi cachorro quente no torneio da Rogers Cup e trabalhei numa papelaria.

Mas afirmo, esses empregos foram fundamentais pra quebrar o meu gelo com o idioma e dar confiança para eu seguir em frente e conseguir algo na área de arquitetura.

Canadiando: O nível de inglês de vocês dois era básico? 

Adriana: O meu era básico pra intermediário. Eu entendia relativamente bem, mas tinha muita dificuldade em falar. O meu marido já era mais avançado no inglês.

Brasileiros esquiando
Arquivo pessoal

Canadiando: O que foi mais difícil deixar para trás? 

Adriana: Sem dúvida nenhuma, minha família e amigos. O Bruno também sente falta, mas ele é mais desapegado.

Canadiando: E seu marido gostou do curso, do college?

Adriana: Bruno fez Construction Project Management na Lambton College, em Toronto. Ele achou o curso bom.

Hoje tem as ferramentas e conhecimentos necessários para entrar no mercado de construção canadense, já que o sistema construtivo na América do Norte é bem diferente do sistema utilizado no Brasil.

Por fim, continua trabalhando com algo relacionado a arquitetura, mas como coordenador de projetos.

Canadiando: Então ambos  estão trabalhando na área, certo? Qual a grande diferença em relação Brasil – Canadá no que se refere a arquitetura?

Adriana:  Sim, trabalhamos na área. Eu e o meu marido, apesar de sermos da mesma área, fazemos coisas diferentes. Eu sempre trabalhei em escritórios de arquitetura com desenvolvimento de projetos.

Já o Bruno sempre atuava como coordenador de projetos em construtoras. Hoje ele trabalha como coordenador de projetos em uma “General Contractor” (construtora) canadense.  

Antes do Covid eu estava trabalhando num escritório de arquitetura, na área de reforma e projetos de Shopping Centers, que eles chamam de retail architecture. A maior diferença, de fato, é o método construtivo, já que as casas são feitas basicamente com muita madeira e drywall e prédios com estrutura metálica.

Não me importo em dar alguns passos para trás se a minha vida no Canadá trouxer o que busco para a minha família: felicidade, qualidade de vida e segurança.

No Brasil, boa parte das construções são em concreto, algumas com aço e alvenaria nas paredes. Além disso, aqui é obrigatório a utilização de isolamento térmico nas paredes e coberturas por causa do clima.

Também, mais um detalhe, é ter que usar escala métrica e imperial para os desenhos dos projetos, dependendo da empresa e do tipo de trabalho de arquitetura. Eu desenho hoje em inches e no Brasil era em centímetros.

Depois que você aprende tudo isso, o trabalho é relativamente parecido. Não posso atuar como arquiteta, por ser uma profissão regulamentada, mas eles contratam como Architectural Designer sob a supervisão de um arquiteto licenciado, assim consigo atuar na área de arquitetura, mas não posso assinar os projeto.

Canadiando:  Pelas suas pesquisas, para qual província você não iria? 

Adriana: Acredito que as províncias ao norte são mais complicadas, por conta do clima de inverno extremo. Também fiquei receosa com a região de Manitoba, já que sempre ouço falar que Winnipeg é muito violenta e insegura, além, é claro do inverno rigoroso. 

Canadiando: Qual a sua principal fonte de pesquisa sobre o Canadá?

Adriana: Assistimos muitos canais de brasileiros no Canada no You Tube, principalmente os irmãos Prezia, Kitty no Canada, Amanda Araujo e Wanabbe Canadian. Eles nos ajudaram muito a entender a vida no Canadá e os caminhos possíveis para imigrar.

Canadiando: Você já tinha vindo antes ao Canadá?

Brasileiros no Canadá
Arquivo pessoal

Adriana: Eu não, mas o Bruno já conhecia Toronto e Montreal.

Canadiando: As expectativas bateram com a realidade?

Adriana: Algumas coisas não. Por exemplo, a questão de conseguir emprego, foi bem mais difícil do que pensei. De fato, vemos muita propaganda de que “chove” emprego no Canadá e que eles precisam muito dos imigrantes.

Com certeza os estrangeiros contribuem expressivamente com a economia do país, mas não é tão simples assim.

A concorrência é alta. As vagas de entry level são mais fáceis em regiões como Toronto, em Ontário, mas as posições qualificadas não são tão acessíveis, principalmente quando seu inglês não é fluente, por mais experiência que você tenha na área.

Temos alguns amigos que tiveram dificuldade em encontrar emprego, mesmo depois de cursar o college. É bom saber que esse recomeço é difícil e solitário. Você precisa ser persistente ou se reinventar.

Outra questão importante é o clima, já que viver com seis meses ou mais de frio é cansativo.

Todo mundo sabe que o Canada em teoria é frio, mas você só vai entender isso – de verdade – vivendo aqui. Por isso os canadenses valorizam tanto o verão.

O inverno longo e de muita neve no Canadá é mesmo assustador?

Canadiando: Qual a sua dica para quem está iniciando o seu Projeto Canadá?

Adriana: Tenha um bom planejamento financeiro para não passar “perrengue”. Pesquisar bastante a cidade, o mercado de trabalho na sua área e o custo de vida. Imprevistos sempre acontecerão, então é importante se preparar financeiramente. 

Vale lembrar que cada um tem uma experiência. Algumas pessoas se adaptam facilmente no primeiro ano, outras demoram ou desistem.  Eu conheço todos esses casos e acho importante ter isso em mente.

Canadiando: Você teria feito algo diferente?

Adriana: Acho que teria me preparado melhor no inglês, para chegar com um nível mais avançado. Outra coisa, acho que poderíamos ter nos organizado mais cedo para conseguir nossa residência permanente, pois isso facilita muita a vida. 

Canadiando: Que conselho você gostaria ter recebido antes?

Adriana: Gostaria de saber mais sobre as dificuldades deste início: as dificuldades iniciais com a língua, as saudades da família que vão nos acompanhar sempre e o desafio de conseguir o primeiro emprego em algo relacionado a construção ou arquitetura.

Acho importante vir com a cabeça aberta e consciente de que talvez você precise trabalhar temporariamente com algo que nunca imaginou até chegar no seu objetivo e estabilizar a vida. Isso é bem comum e não tem nenhum problema. É importante tirar esse preoconceito da mente. Toda experiência é válida.

Outro conselho para quem está buscando o primeiro emprego na área: aceite receber menos para não perder a oportunidade. Depois que você conseguir a vaga, dê o seu melhor que as coisas irão acontecer.

Só assim você poderá iniciar o seu networking e a indicação de profissionais do seu meio valem ouro. Pelo menos na área de arquitetura é assim.

A gente só muda e cresce quando sai da zona de conforto e enfrenta dificuldades inimagináveis. 

Psicologicamente é bem intenso. Posso dizer que só hoje, após três anos, que me sinto mais adaptada. O Bruno já se sentiu em casa bem mais rápido.

Por enquanto continuamos com planos de seguir em Ontário, mas não sei dizer se ficaremos o resto da vida aqui ou não. A mudança mais difícil já aconteceu, que foi conseguir sair do Brasil. Projeto Canadá


O Projeto Canadá busca, sobretudo, relatar as histórias dos imigrantes de língua portuguesa que estão recomeçando a vida na América do Norte.

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