Quando somos crianças, uma amizade pode começar em cinco minutos ou até menos. Na vida adulta, às vezes passam cinco anos e ela não acontece. Ou acontece de outro jeito, meio distante, sem aquela presença constante que a gente imagina.
Eu posso falar pelo que vivo e pelo que escuto há quase quinze anos. Para uma brasileira, esse é um dos choques mais silenciosos para quem imigra. Não vou dizer que as pessoas são frias. Mas existe, sim, uma distância difícil de atravessar em vários aspectos.
A vida adulta canadense costuma ser muito organizada. E, no meio disso, cada um acaba ficando no seu quadrado e no seu calendário. Tudo precisa ser marcado, tudo precisa caber na agenda, e aquela nossa espontaneidade vai se perdendo no caminho.
O frio que pesa
O clima também tem sua parcela de culpa. Nos meses de neve, a vida acontece muito mais dentro de casa. A preguiça toma conta, os encontros casuais diminuem, as caminhadas longas ficam mais raras e muita coisa que ajudaria a criar convivência simplesmente desaparece por alguns meses.
E é justamente essa convivência sem planejamento que, muitas vezes, aproxima pessoas diferentes e ajuda uma amizade a nascer.
O Statistics Canada monitora solidão e pertencimento como parte dos indicadores de qualidade de vida do país, justamente porque relações sociais fazem parte do bem-estar. Segundo o órgão, no primeiro trimestre de 2024, 13% das pessoas com 15 anos ou mais disseram que se sentiam sozinhas sempre ou com frequência. Entre jovens de 15 a 24 anos, esse número chegou a 17%. Entre adultos de 25 a 54 anos, ficou em 14%.
Ou seja, a solidão não aparece apenas na velhice. Ela também atravessa a vida adulta, justamente a fase em que muita gente está tentando trabalhar, criar filhos, pagar contas e ainda manter algum tipo de vida social.
Para imigrantes, existe ainda outra camada: o recomeço.
Você chega adulto, sem histórico, sem infância compartilhada, sem família por perto, sem aquela rede que levou décadas para existir no Brasil. Precisa reconstruir tudo do zero.
E amizade adulta não nasce só de afinidade. Ela nasce de repetição, tempo e vulnerabilidade.Talvez por isso tanta gente diga a mesma coisa:
“Eu conheço muita gente no Canadá, mas amigos de verdade, poucos.”

